Um terrível paradoxo

Israel – Terra Santa, tanto faz. Alguns cartazes nas empresas de turismo oferecem viagens à Terra Santa, outros a Israel. A oferta é a mesma. Quando se diz que alguém vai a Israel todos sabem que vai a Terra Santa. Esse pequeno país do Oriente Médio possui uma aura de santidade, é o cenário da maior parte da história bíblica, daí a sua importância na história da fé ocidental. Mesmo para os cristãos católicos, o valor espiritual da Terra Santa não se compara ao de Roma, pois são lugares de importância e significados muito distintos. Mas até que ponto estes dois termos – Israel e Terra Santa – são sinônimos? Que implicações traz isso a Israel e seu povo ? Quais os efeitos da santidade da Terra e da divina escolha do povo judeu (dimensão bíblica – religiosa) na relação com o mundo ocidental?

Estamos diante de dois termos que possuem o mesmo valor, mas que podem indicar duas realidades diferentes: o país judeu e centro espiritual das três religiões monoteístas. Diferenças que devem ser observadas e respeitadas. No mesmo espaço geográfico há um país., Israel, comum, como qualquer outro, com seus feitos e desfeitos. Com problemas de internos e externos para administrar. Que mantém relações diplomáticas dentro das normas internacionais. Está também envolvido nas contingências da ordem política, econômica e cultural do ocidente. Enfim, é um país comum de um povo comum. Talvez esta é seja a melhor maneira de situar Israel. Assim as expectativas sobre ele não fossem tão grandes. Talvez o mundo não fizesse do mínimo o máximo, e tudo o que acontece naquela pequena região do Oriente Médio tivesse a sua real importância no contexto mundial. Até, quem sabe, o país judeu pudesse conversar a sós com seu vizinhos e chegar a um acordo positivo.

Penso, às vezes, que Israel tem a síndrome do filho perfeito. Nunca pode errar, nunca pode perder e deve ser sempre exemplar. Ora, se Israel não fosse comum, se seu povo não fosse igual a outros, não teria o mérito. E se é exemplar, não pode ser perfeito, pois seria um modelo inatingível.

O termo Terra Santa, expressão de origem bíblica, refere-se ao outro lado da mesma moeda. Sim, Israel é Terra Santa. Mas o é, não por suas pedras e águas, mas sim, pelo seu povo e pelos seus feitos do passado e do presente. A santidade não nasce feita, não cai do céu atingindo involuntariamente as pessoas. A santidade é opcional, quem a escolhe a busca nas suas condições humanas. A santidade de Israel, originária dos tempos bíblicos, tem sua validade e continuidade à medida em que seu povo administra o seu território, o torna habitável e fértil, possibilita o desenvolvimento social dentro da justiça e da democracia, respeita o valor de seus indivíduos. Se ainda não há perfeição em Israel, há, com certeza, um caminho para isto.

Na realidade estas duas formas de denominar o mesmo país nos põe diante de um paradoxo. Uma condição quase que incompreensível: um país e um povo comum que quer ser tratado e respeitado como tal é, ao mesmo tempo, Terra Santa de um povo escolhido por Deus para ser um sinal entre as nações. Quero acreditar que haja no mundo um reconhecimento tal da sua missão exemplar para os povos que justifique essa grande expectativa sobre Israel e seu povo. Mesmo assim, não aliviaria o peso imposto sobre esta divina escolha. Esta honra toda não facilita a vida, pelo contrário, traz sofrimento. Todos que conhecem a história de José, filho de Jacó, sabem o quanto custou a ele a sua bela túnica listrada. Espero que as nações saibam aproveitar o “alimento” que Israel deu ao mundo, assim como José alimentou seus irmãos. Assim, ao menos, estaria justificado o fardo muitas vezes imposto à este país e a este povo.


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