Poema a Israel
Por Armindo Trevisan em 16/fev/2001 em Inspiração
I
Chama-me, lua de Israel, grande lua de Israel,
interminável laranja aberta sobre o mundo.
O jumento, o cântaro, o feixe de lenha
e o peregrino estarão dentro de ti, varridos
pela imensidão de uma luz cujo rosto
é estar em toda a parte, e em parte nenhuma.
II
Oh! Quem poderá sentir, outra vez, a carne
tão cheia de opalas, tão misteriosamente atravessada
por uma matilha de meteoros, todos eles transformados
em fios sutilíssimos de tungstênio liquefeito.
III
Quero falar, mil vezes nesta noite, de tua lua
que o asfalto se recusava a massacrar sob os pneus,
porque lá fora, nalguma parte, onde as ovelhas
tinham desvestido, de súbito, suas lãs,
uma brisa de agulhas reduzidas a reticências
embarcava nas espáduas de tuas mulheres nuas.
IV
Chama-me, lua de Israel, grande lua de Israel:
para ti darei meu coração que tropeçou
numa de tuas colinas, por sobre as quais jorravam,
no silêncio da noite, os perdigotos das metralhadoras!
V
Quem poderá, também engolir pelas pupilas
a espessura musical do lago de Tiberíades,
em cujas orlas o verde, o teu verde sofrido,
pela primeira vez, perdera suas sentinelas?
Ah, como são belos os teus recantos de pedra,
as tuas palmas alegremente sensuais, a que o sol
violento do meio dia empresta a lixa
lânguida de um tabaco que jamais há de existir!
VI
Chama-me, sol de Israel, grande sol de Israel,
ruidoso badalo sacudido dentro dos nervos,
para que a areia amarela e os figos implacáveis
espremam sobre os beiços uma mistura estranha
de linho de odaliscas e de ranger de rodas,
de preguiça madura e de orgulho esmerilhado.
VII
Acolá, na planície dolorosamente acordada,
as frutas cítricas agridem a impaciência dos canos,
através dos quais a alma da terra anestesia
toda uma espera infinita de carnes destroçadas.
Sim, há um ghetto em cada romã que o turista
colhe, pela manhã (ah, sol de Israel, sol de Israel),
e Edith Stein passeia em Caná, cujo vinho
explode em sabor de chaminés e cinzas.
VIII
Subimos até à inconsciência do monte Tabor,
onde as lagartixas exercem a pirotécnica
de suas astúcias de bicho que decifrou nas ruínas
o orvalho empedernido de uma História sem estacas.
IX
Shalom, monotonia de calor e vigília,
Shalom, ó Kibbutz de Davi onde as flores
exigem a psicanálise das coisas que aí estão
torturadas de beleza e de sabedoria ao ar livre.
Deixa-me ir de novo a Lavi, na tua Sinagoga
que me varou o espírito como uma flecha ungida
de óleo e serenidade, de resina de ciprestes
e de chumbo derretido nas veias de tua Diáspora.
X
Tenho uma dívida de alma para ti, Mar Morto,
e para ti Jericó, velhíssima entre as mulheres
que me cozeste os miolos com teus ferrões de abelha
fazedora de mel e de rosas, rosas, que são rosas. . .
Lá está o teu sol, ó sol de Israel, sol de Israel,
a tua tâmara, o teu alcômoro, a tua fêmea que mira
o corpo do homem como uma raiz com urgência de treva
e quer, com a treva, a força centrífuga da liberdade.
XI
Jerusalém, entorna-me teus vales nas narinas,
mete-me aos ombros o peso mortal de tuas colinas:
que importa? Amo a cintilação insuportável de tuas casas,
a mentirosa comunhão de tuas mesquitas e almotolias,
o teu esgar contemporâneo de relojoeiro erudito,
a tua necessidade de ciência para esmagar a serpente.
Amo-te! Amo-te, cidade da Paz traída,
e vejo em ti Javé a pisar o coração dos homens,
como um vinhateiro pisa as uvas no lagar,
como Einstein pisaria a sua própria Teoria.
XII
Chama-me, lua de Israel, grande sol de Israel:
ao teu ventre voltaremos, em doze tribos vastíssimas,
quando os arados dançarem nas mãos dos homens
e em suas lâminas se refletirem os rostos de suas bem-amadas!
Diremos: volta, ó Sulamita, com o perfume da tua boca,
com o odor de tuas maçãs, com os teus cabelos e teus quadris,
porque o tempo do amor já chegou aos nossos pés
a subir e a descer pelos celeiros do mundo.
Diremos: fomos feitos para o amor, e não para o ódio,
como os tetos que respiraram, pela primeira vez, em Degania,
e queremos que um pássaro cante na alma de cada homem,
porque morrer é triste, e a vida renasce cada manhã.







Envie um comentário