Judeus de Bombacha e Chimarrão
Por Malkhut em 17/ago/2001 em Kehilah Brasil
Falar dos judeus em Portugal, é repetir, em mais negras tonalidades, o que com eles acontecera na Espanha Cristã. Tal qual na Espanha, sua presença em terras de Portugal é constatada desde tempos imemorais. Precederam em muito o aparecimento do Condado Portucalense. O seu número se aproximava, segundo Alexandre Herculano, da metade da população autóctone.
Ainda tal qual na maioria dos países cristãos, partiram do seio da Igreja católica os primeiros acordes da sinfonia antijudaica. No linguíssmo tempo que antecede o advento do século XIX, o século da igualdade para os judeus portugueses, o fatídico slogan “batismo ou morte” esteve sempre presente, não obstante constituírem os judeus a classe mais culta e empreendedora do país.
É verdadeiramente inconcebível que para pecadores ou culpados irremisso, cujos “crimes” só a morte redimiria, bastassem apenas alguns respingos de água-benta para absolvê-los e reintegrá-los em privilégio e honrarias. Uns inocentes respingos a decidirem sobre o direito à vida.
Mas… para os inculpados não se tratava de gotas inocentes. Seu significados tinha um conteúdo pleno de imposícões violentas. Violentavam a liberdade de consciência, a dignidade humana, o direito de ser. Implicavam renegar crenças e convicções. Afrontavam o conceito bíblico de que o “homem foi feito à imagem de Deus”. Abjurar ou morrer… E para a exaltação do ser humano, para sua eterna glória, milhares e milhares de judeus, entre eles o brasileiro Antônio José da Silva, preferiram a morte!
O grito da turba ignara, açulada pelo clero – “matemo-los e roubemo-los” –, denuncia brutalmente a principal razão dos ataques contra os judeus. Alexandre Herculano diz revelar esse grito a causa principal de tanto ódio: a pilhagem.
Assim decorreram alguns séculos. Intervalos de tranquilidade também houve, mas cada um deles, ao primeiro pretexto, a violência se desencadeava, não poupando velhos, mulheres, crianças e bens. Nem mesmo os que haviam baqueado, aceitando o batismo – os chamados cristãos-novos – escapavam da fúria bestial.
Entre os crimes hediondos, certamente os que mais feram a sensibilidade humana, estão os praticados por D. João II e D. Manuel. Crimes que excedem, em consciente perversidade, os da Inquisição, pois esta exterminava pelas fogueiras, em questão de horas, enquanto os daqueles provocavam dores atrozes por toda a vida.
Refiro-me à ordem decretada pelo primeiro, de que todas as crianças de dois a dez anos fossem retiradas, para sempre, dos braços dos pais e transportadas às ilhas açorianas. O que foi feito.
Não é sem razão que o professor Mâncio Costa – ilustre descendente de casal açoriano chegado a Santa Catarina em 1744 e de reconhecida ascendência judaica –, respondendo a uma indagação minha (“quais as famílias catarinenses portadoras de sangue judaico?”), respondeu-me: “Muito, muito mais fácil seria informar quais as que não descendem de judeus…”
E já que abordo, de passagem, a mescla de sangue judaico na formação étnica brasileira, só me cabe deplorar a ausência de amplo, paciente e consciencioso estudo histórico nesse sentido, sem que, nem de longe, essa observação indique desconhecimento do que já foi feito, e que só louvor merece.
É mais do que natural atribuir à soma das violências contra os judeus de Portugal o motivo da sua evasão do país. Além do Brasil, onde aportavam disfarçados como cristãos, grande foi a sua emigração para os Países Baixos, de cuja prosperidade foram causa principal, onde podiam , livremente, assumir sua condição de judeus.
O mesmo se verificava, por períodos variáveis, na Itália, Hungria, Boêmia, Alemanha, Áustria, Polônia e em certas regiões da Rússia e da França.
Não nos esqueçamos de que Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, um dia foi chamada de Porto dos Casais, em alusão aos casais açorianos que migraram para aquela localidade, hoje capital do Estado.







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