A Rosa do Gueto
Por Jayme Copstein em 18/jul/2001 em Autores Judaicos
Em 21 de setembro de 1939, quase três semanas após o início da II Guerra Mundial, Reinhardt Heydrich, chefe da Polícia de Segurança do Terceiro Reich, enviou circular aos seus subordinados, com instruções para o que os nazistas chamavam de “Solução Final” – o extermínio da população judaica nos territórios ocupados.
Em 20 de janeiro de 1942, ao encerrar a mais importante conferência realizada no Departamento Central de Assuntos Raciais, Heydrich determinou que a “Solução Final” fosse apressada. No cumprimento das ordens, o “gauleiter” da Polônia, Hans Frank, recusou-se a fornecer alimentação às 450 mil pessoas confinadas no Gueto de Varsóvia, em espaço que só comportava 150 mil.
Tinha 15 anos. Chamava-se Rosa, como muitas mulheres do seu povo.
No Gueto, todos passavam fome e tinham medo. Rosa sentia-se só e aturdida. Quando olhava para cima, o universo era feito de sol, de azul, de nuvens brancas. Quando olhava para frente, o mesmo universo ficava cinzento e escorria pelo chão coberto de detritos, para terminar abrupto junto ao muro.
Foi ali que ela encontrou a roseira quase fanada e coberta de pó.
A partir de 22 de julho de 1942, os nazistas acionaram ao máximo a máquina de horrores. Em menos de um ano, somente 60 mil pessoas sobreviviam no Gueto. As demais tinham morrido de fome ou assassinadas quando procuravam ultrapassar o muro em busca de comida. E também enviadas às câmaras de gás.
Schmilek a viu ajoelhada junto ao muro. Pensou que ela enlouquecera.
- Rosa, que fazes? – perguntou aflito.
Ela sorriu. Apontou a roseira.
- Estava quase morta. Acho que a salvei.
Schmilek respirou fundo e movimentou as mãos num cacoete de impaciência muito próprio dos homens de seu povo. Ficou só no gesto. Aquele sorriso apagava o muro cinzento e os seios de Rosa arfavam, na esperança da vida ressurgente.
Em janeiro de 1943, Himmler fez visita de surpresa a Varsóvia. Não ficou nada satisfeito quando soube que ali ainda restavam 60 mil judeus.
Suas ordens foram terminantes: – liquidação total até 15 de fevereiro.
Rosa o chamou alvoroçada:
- Schmilek!… a roseira!…
Ele olhou a planta. Um pequeno botão despontava. Tentou falar, dizer o que estava acontecendo no Gueto, mas desistiu. Dentro dos olhos de Rosa só havia flores. Ela não se sentia mais só nem aturdida.
Então Schmilek sorriu um sorriso muito difícil, também feito das lágrimas contidas a custo.
Os alemães encontraram dificuldades para cumprir as ordens de Himmler. O desastre de Stalingrado e as contínuas retiradas do exército nazista da frente russa provocaram escassez de transportes. Era impossível retirar os judeus do Gueto em tão pouco tempo, para conduzi-los aos campos de extermínio.
Só em março, a operação pôde ser iniciada. Mas sobreveio novo obstáculo: os judeus começaram a resistir. Então, foi ordenada a destruição do Gueto e o massacre de seus habitantes.
Quanto o botão desabrochou, a rosa apareceu muito vermelha. Ela pediu:
- Colhe a rosa, Schmilek. Colhe e me oferece.
Havia muito de céu nos olhos de Rosa. E também um apelo de amor.
Era o momento de contar a verdade.
- Rosa, nós vamos morrer.
A dor brotou dos olhos da menina, apagando o céu e o apelo de amor. O silêncio desceu entre os dois.
Schmilek tomou-lhe a mão. Caminharam até onde havia uma fenda no muro.
- Olha.
Rosa viu um soldado alemão. Ansiosa, buscou alguma coisa que o fizesse diferente. Só podia ver que o soldado era de carne e osso como eles.
- Ele não gosta de rosas? – perguntou, sem conseguir entender.
Schmilek aconchegou-a o junto a si, procurando algo que a consolasse.
- Ele gosta de rosas – murmurou.
- Por quê, então?
- Disseram-lhe que éramos maus. Que o odiávamos. Agora acha que somos maus e nos odeia.
- Vamos falar com o soldado, Schmilek. Vamos mostrar a rosa. Dizer que é mentira. Que somos bons, que amamos a todos. Ele nos amará também. Todos seremos felizes.
Schmilek sacudiu os ombros em desânimo. Falou quase sem inflexão:
- Inútil. Não acreditaria. Rosa calou-se.
Voltou para a roseira. Começou a acariciar a flor recém desabrochada, como se a estivesse gerando em suas próprias entranhas. De repente, irrompeu em alegria:
- Vai nascer outro botão! Vai nascer outro botão, Schmilek! Preciso cuidar dele, também!
Schmilek não resistiu mais. Os soluços o sacudiam. Não pôde evitar que as palavras lhe saíssem aos gritos:
- Mesmo sabendo que vamos morrer, insistes nesta idéia maluca de cuidar de rosas!?
Rosa não se alterou. Pelo contrário, estava calma. E eternamente calma, colheu a flor e beijou suas pétalas.
- Só por que alguém não acredita em nosso amor, devemos esquecer as rosas?
Em 19 de abril, o general nazista Stroop atacou o Gueto com blindados, artilharia, lança-chamas e dinamite.
Os judeus tinham somente alguns fuzis e duas metralhadoras. Assim mesmo, refugiados na rede de esgotos, lutaram até 16 de maio, quando foram vencidos pelo fogo que os nazistas atearam no Gueto.
Toda a resistência cessou ao ser dinamitada a grande sinagoga da rua Tlomacki.
Não podiam esperar mais.
- Vamos – convidou Schmilek, apontando o caminho dos esgotos.
Ela vacilava.
- E a minha rosa?
- Traze-a contigo. Estaremos juntos, os três.
- Não, a rosa precisa viver. E sem que Schmilek entendesse o gesto, jogou a flor por cima do muro. Depois, foi a escuridão dos esgotos.
Hans Frank, gauleiter da Polônia, olhou feliz para a flor que estava em cima de sua mesa de trabalho. Um soldado a tinha encontrado, lhe dissera o general Stroop. Era tudo que restava do Gueto.
Frank afagou o rosto com a flor, para sentir a maciez das pétalas. De alma leve, flutuando em bem-aventurança, começou o relatório:
“O Gueto de Varsóvia deixou de existir…”
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