A QUESTÃO É . . . (IV)
Por Moshe Ben Mazal em 9/set/2006 em Kehilah Brasil
Carta Aberta
de François Leotard (ex-Ministro da França)
a Mahmoud Ahmadinedjad (Presidente do Irã)
Senhor Presidente:
Francamente, ao começar esta carta, não me motivaria a chamá-lo deste modo. Esse título implica um mínimo de respeito. O faço, no entanto, porque é o senhor que se expressa em nome dos iranianos. Nas fotos, vejo o senhor diante de multidões, com rostos e mãos levantadas.
Sem dúvida, qualquer um poderia adivinhar certa forma de entusiasmo e, nesse caso, de adesão. A Europa já conheceu essas multidões. Foi um mau momento para nós. Um período trágico, do qual seguimos arrastando a vergonha e a angústia.
Um dos povos mais cultos do mundo, um povo que elevara a um alto grau a filosofia, a música, a poesia, um povo que havia assombrado seus vizinhos com seu resplendor, havia se afundado no ódio, na loucura racial, na ignomínia.
Dezenas de milhões de indivíduos sofreram, na carne, na cultura, na dignidade, essa estranha barbárie que se dizia chamar de “nova ordem”. Foram, primeiramente, os próprios cidadãos desse Estado, alemães, e depois, pouco a pouco, os demais, todos os demais.
Essa loucura foi chamada de Guerra Mundial.
Mas foi, acima de tudo, uma guerra contra o que havia de humano em nós mesmos. Livros foram queimados, as crianças foram deportadas e assassinadas, as inteligências foram quebradas. Tudo o que nos honrava como homens foi pisoteado.
E logo chego ao senhor: uma parte da espécie humana, o povo judeu, foi destinado ao inferno. Está bem, eu lhe concedo, foi só uma parte. Não eram, nem os mais numerosos, nem os mais ricos, nem sequer os mais influentes.
Eram homens e mulheres que haviam levado consigo, durante muito tempo, e desde tempos longínquos, sua fé, suas perguntas sobre o mundo, sobre Deus, sobre a necessidade de viver ou de sofrer, sobre a alegria de amar. Geralmente, freqüentavam os livros. Refletiam muito, não compreendendo porque não eram queridos, porque se lhes chamava de sub-humanos, “Untermentsch”, porque eram considerados insetos.
Foram perseguidos em toda a Europa, enforcados, fuzilados, queimados…
O senhor, com certeza, sabe disso tudo, mas aqui o relembro, perante o senhor, pelo menos por três razões:
A primeira, é que nós (digo “nós”, como modo de falar) não aceitaremos que tudo volte a começar. Eu não sou judeu, mas os judeus são, como os persas, meus irmãos na humanidade. A segunda, é que eles têm o direito, como o senhor, como eu, de ter uma pátria. Que seja a França ou Israel, isso em nada muda o assunto. A terceira razão o senhor não irá gostar. Mas, paciência: é que eles aportaram ao mundo (e é provavelmente isso que o senhor quer “varrer do mapa”) uma concepção do homem e de seu destino que vem enriquecendo a civilização há vários séculos, o que honra tanto ao povo judeu, quanto ao Estado de Israel.
Presidente, o senhor tem o direito de ser nacionalista. O senhor tem o direito de sentir-se orgulhoso da história do povo persa. O senhor tem o direito de ser crente e orar a Deus “clemente e misericordioso” citado no começo de cada sura do Corão.
O senhor, entretanto, pensa que tem o direito de obrigar às mulheres a ocultar o rosto atrás de um véu, de torturar seus opositores, de encarcerar os jornalistas que o contradizem, de condenar crianças à morte, de perseguir minorias, de iniciar “guerras santas” contra os “infiéis”.
Mas o senhor não tem o direito de impor a Israel o olhar turvo, imbecil e cheio de ódio que acompanha seus discursos. E me parece que o senhor odeia nesse Estado, a liberdade de expressão, a diversidade partidária, o papel da oposição, a modernidade, a independência dos poderes e da justiça, a investigação universitária, as descobertas e os novos inventos e, sem dúvida, a valentia que ali existe. Quer dizer, tudo o que nós temos o direito de admirar.
Os homens que organizaram a reunião de Wannsee, na qual se decretou o extermínio dos judeus da Europa, já morreram. Naturalmente, a igual que todos nós, o senhor seguirá esse destino. Desejo, somente para o senhor mesmo, para o povo persa, para as crianças do Irã que lhe sobreviverão, que ninguém se sinta com vontade de cuspir sobre seu túmulo.
FRANÇOIS LEOTARD (ex-Ministro francês), julho de 2006.
Tradução: Jorge Ignácio Szewkies







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