A guerra não é um jogo e crianças não são marionetes
Por Moshe Ben Mazal em 8/nov/2000 em Israel Hoje
Não interessa quais sejam suas inclinações políticas, com quem você se alinha no conflito árabe-israelense, ou quem está certo ou errado. Sem considerar nada disso, deve haver um acordo sobre um ponto: devemos retirar as crianças do campo de batalha. As crianças não devem ser parte ativa em conflitos ou guerras. Elas não devem ser colocadas na linha de combate. Elas não devem ser as vítimas dos adultos. Elas não devem morrer.
O que importa para esta criança morta se ela é um símbolo ou um mártir, uma vítima ou um item do noticiário? O que há de bom num símbolo morto?
O que beneficiaria a uma criança morta, se ela soubesse, ou se nós soubéssemos, quem está certo e quem está errado? Para uma criança morta nada disso importa mais. Para uma criança morta não existe presente nem futuro. Uma criança morta não tem mais nenhum direito, e não se importa mais com o que lhe é garantido por tratados e declarações que não foram mantidos.
É tão fácil para os adultos usar as crianças para seus próprios objetivos ! É tão fácil arrastar as crianças para jogos de guerra e fazer deles símbolos. É tão fácil e tão errado. Tão fácil e tão, tão perigoso !
É tão fácil porque as crianças, através da história e em qualquer sociedade, estão sob a autoridade dos adultos e dos pais, a quem são ensinadas a respeitar e obedecer.
É tão fácil porque as crianças são facilmente influenciadas e facilmente manipuladas. Propaganda, incitação e principalmente as ações dos adultos são tomadas pelas crianças pelo que aparentam – literalmente, sem qualificações e sem uma perspectiva moderadora. Mesmo que os adultos realmente não o pretendessem, ou estivessem apenas exagerando para expor seus pontos de vista.
É tão fácil usar as crianças porque, desde tempos imemoriais, as crianças são consideradas propriedade de seus pais e como recursos futuros de suas sociedades. Como os emissários que levarão os valores e os logros do mundo de hoje para o futuro. Em muitas sociedades do mundo, a imagem bíblica do sacrifício de Isaac é considerada o supremo teste da fé. Que desventurado e que trágico que a estória do quase assassinato de uma criança pelo seu próprio pai ficou na nossa memória coletiva sem a moral intrínseca e sem a interdição de Deus de nunca sacrificar uma criança.
É tão fácil sucumbir à tentação de usar crianças, pois elas são tão facilmente usáveis! As crianças confundem facilmente imagem e realidade, fantasia e verdade. E que criança nunca brincou de guerra com armas de brinquedo? Todas as crianças são expostas à violência e à guerra em filmes, videogames e jogos de computador, nos quais tudo que tem a fazer é apertar um botão para apontar, atirar e destruir – e ganhar pontos com isso. Que criança não quer ser um combatente, um herói, um vitorioso, um símbolo?
Que fácil é para uma criança pensar que é tudo um jogo, que pode ser iniciado e parado quando quiser, simplesmente apertando um botão!
Que fácil é para um adulto colocar uma criança nessa luta, para seus propósitos – pois, em última instância, a criança está lá para que a herança dos pais sobreviva. Para que seu caminho não seja abandonado. Assim, as crianças são criadas com os mitos e valores de sua sociedade, para que possam representar o futuro de seu povo.
E as crianças são tão fotogênicas! Eles são um item do noticiário que nenhum jornalista pode dar-se ao luxo de perder. Se o inimigo hesita ou erra o alvo, nós o venceremos. E se não, uma foto vale por mil palavras, e uma foto de uma criança ferida ou morta vale mais que um milhão de palavras…
É tão fácil e tão errado! Tão perigoso e tão, tão terrível.
A guerra não é uma brincadeira de crianças. No campo de batalha, os mortos não se levantam e saem andando quando o filme acaba.
A guerra não é um jogo. As crianças não são peões num tabuleiro de xadrez ou marionetes num barbante.
As crianças, por natureza, são facilmente feridas – fácil e severamente, no corpo e na alma. Mesmo que os soldados só apontem para as pernas, temos que lembrar que as pernas dos adultos estão ao nível do olho das crianças. As crianças são fisicamente mais fracas e facilmente atingidas. Ferimentos que não seriam fatais para um adulto podem ser mortais para uma criança.
As crianças tendem a correr riscos. Tendem a ser menos cautelosas e assim se expõem a perigos maiores. Conseqüentemente, tendem muito mais a ser feridas.
Tragicamente os fatos provam que este é o caso. Quando as crianças estão na linha-de-frente, não existem milagres. As crianças são mortas, feridas e sofrem danos – no corpo, na mente e no espírito.
Todas as crianças que foram expostas à batalha e ao derramamento de sangue carregam com elas profundas feridas psicológicas, mesmo que seus corpos tenham saído ilesos.
Colocar crianças na linha-de-frente, como participantes da violência, como agressores ou como vítimas, tem terríveis conseqüências pessoais e sociais a longo prazo.
A violência termina corrompendo a alma de quem faz uso dela, diminuindo a repulsa à agressão, especialmente no que diz respeito aos jovens. É como um gênio, fácil de libertar, quase impossível de colocar de novo na lâmpada.
Uma criança que participa da violência é uma ameaça para si mesma e para os outros, assim como para a sociedade em que vive, agora e no futuro. A violência plantada em seu coração tende a ser dirigida no futuro não só contra o inimigo, mas também contra sua família, seus filhos, outros adultos e, em particular, contra aqueles mais fracos que ela. É impossível controlar como crescerão as sementes de violência plantadas no coração de uma criança, mesmo por razões aparentemente legítimas.
O uso de crianças para objetivos perigosos tende também a pavimentar o caminho para uma maior manipulação de crianças por adultos. Se é legítimo arriscar as vidas das crianças na defesa da fé ou de ideais, o que impedirá os adultos de usar crianças para perseguir outros objetivos – igualmente inadequados, mesmo que fossem menos mortíferos.
É tão fácil usar crianças. Tão terrível e tão, tão errado!
As crianças não deveriam ser enviadas à linha-de-frente de batalhas ou conflitos. Não deveriam ser encorajadas a participar na violência e não deveriam ser tacitamente permitidas de participar por adultos que nada fazem para impedí-las.
Como se fosse possível parar a violência entre adultos! Mas enquanto ela continua, as crianças não devem fazer parte do jogo. Pelo menos nisso os adultos deveriam concordar – mesmo que não concordem em nada mais.
As crianças não são o objeto de ninguém.
As crianças não deveriam ser um alvo para as armas do nosso lado, ou do lado deles, ou do lado de ninguém.
As crianças precisam viver. Nossas crianças. As crianças deles. Crianças em qualquer lugar que estejam, e quem quer que sejam.







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